EdiçãoFrancesa

Em 2015, a Buenos Dias, os festivais integrantes do Núcleo dos Festivais de Artes Cênicas do Brasil e a Editora Cobogó lançavam o projeto de Internacionalização de Dramaturgias – Edição Espanhola. No texto que prefaciava os livros e contava a origem do projeto, Márcia Dias, Diretora da Buenos Dias e Curadora e Diretora do TEMPO_FESTIVAL, se perguntava se haveria continuidade e quais desdobramentos poderiam surgir daquela primeira experiência.

Após três montagens, a produção de um filme e uma indicação à prêmio, nasce um novo desafio: A Nova Dramaturgia Francesa e Brasileira, que prevê tradução, publicação, leitura dramática e lançamento de oito textos de cada país em eventos e salas de espetáculos da França e do Brasil. Um projeto que se inicia sob o signo do intercâmbio, para dar continuidade aos objetivos do projeto em favor da criação artística e internacionalização das artes cênicas.

Esta ação articulada teve a duração de dois anos e envolveu todos os festivais integrantes do Núcleo. Durante o ano de 2019, os textos franceses percorrerão 04 regiões do país iniciando as atividades na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). A partir daí, seguiu para o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT Rio Preto), Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília e Festival Internacional de Londrina (FILO). Depois, as atividades se deslocaram para o Recife, no Festival Internacional de Teatro de Pernambuco (FIT- PE) e, logo após, desembarcam no Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas, e no TEMPO_FESTIVAL – Festival Internacional de Artes Cênicas do Rio de Janeiro. A finalização do circuito aconteceu no Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (FIAC Bahia), em Salvador.

Na primeira etapa do projeto, previu oito textos de autores franceses contemporâneos foram traduzidos por diretores-autores brasileiros. As obras foram publicadas pela Editora Cobogó e encenadas nos festivais que compõem o Núcleo. Em 2020, os autores brasileiros teriam seus trabalhos traduzidos e publicados na França e encenado, por diretores franceses no Théâtre National de La Colline em Paris, no Festival Actoral em Marselha e na Comédie de Saint-Étienne, infelizmente a etapa foi suspensa por causa da pandemia.

Integraram o projeto os dramaturgos brasileiros e franceses: Alexandre Dal Farra, que traduz J’ai pris mon père sur mes épaules, de Fabrice Melquiot; Gabriel F., responsável por C’est la vie de Mohamed El Khatib; Grace Passô, que traduz Poings, de Pauline Payrade; a Jezebel de Carli cabe La brûlure, de Hubert Colas; Márcio Abreu se debruça sobre Pulvérisés, de Alexandra Badea; Pedro Kosovski faz a tradução de J’ai bien fait?, de Pauline Sales; Quitéria Kelly e Henrique Fontes trabalham com Où et quand nous sommes morts, de Riad Ghami; e finalmente, Renato Forin Jr. traduz Des hommes qui tombent, de Marion Aubert.

Confere singularidade ao projeto a ênfase no gesto artístico. A escolha de envolver diretores-dramaturgos para realizar a tradução brasileira, reconhece um saber da escrita do teatro que se constrói e amadurece nas salas de ensaio. Outra característica do projeto é a leitura dramatizada dos textos. Em um formato de residência, artistas brasileiros e dramaturgos franceses compartilham o processo criativo e preparam a leitura. Cada um dos Festivais que integram o Núcleo apresenta o resultado deste processo e realiza o lançamento do respectivo texto.
A chegada à segunda edição do projeto poderia sugerir uma conclusão, o porto seguro das incertezas da primeira experiência. Mas pelo contrário, renovam-se expectativas. Das inquietações que fazemos nossa nova aventura, força que nos anima.,

Nesta perspectiva, a Buenos Dias, em parceria com Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil, dá continuidade para o desenvolvimento da exportação das Artes Cênicas por meio do projeto de Internacionalização da Dramaturgia.

Eu carreguei meu pai sobre meus ombros, de Fabrice Melquiot

Tradutor: Alexandre Dal Farra

Livremente inspirada em vários cantos da Eneida, de Virgílio, Eu carreguei meu pai sobre meus ombros narra, à maneira de uma epopeia, a trajetória de Roch, um homem pobre que acaba de descobrir que está com câncer e a quem só resta um mês de vida. Estamos em novembro de 2015, na madrugada dos atentados ao Bataclan, em um bairro da periferia de Saint-Étienne, em Paris. É quando Roch dá a notícia a seu filho, Énée, a sua namorada, Anissa, e a seu amigo de toda a vida, Grinch, dizendo ainda que gostaria de viajar, a fim de morrer em uma região distante, ou por ele desconhecida, negando-se a começar um inútil e sofrido tratamento por quimioterapia. A fábula, ao mesmo tempo cômica e desesperada, traça de maneira comovente a jornada de um quase moribundo rumo a um lugar imaginário. Mais que da morte em si, a peça, traduzida por Alexandre Dal Farra, fala de amizade e humanidade ou, ainda, segundo as palavras do autor, “de aceitação da vida, plena desta energia inerente ao desespero”.

Homens que caem, de Marion Aubert

Tradutor: Renato Forin Jr.

Cédric, Julien e sua equipe decidem montar, em 2016, um espetáculo a partir do romance Nossa Senhora das Flores. No decorrer dos ensaios, a obra-prima do escritor maldito Jean Genet os atinge como uma flecha: em seu isolamento dentro de uma cela de cadeia no início da década de 1940, o autor fala diretamente com os atores que decidiram levar o texto ao palco tantos anos depois. Através de personagens como a travesti Divine e de seus amantes – Mignon, Nossa Senhora das Flores, Alberto –, estabelece-se um intenso jogo ficcional, especular, em que os integrantes de uma companhia de teatro contemporâneo vivem na carne as angústias, os desejos e a marginalização de uma sexualidade que Genet soube, como ninguém, explorar.

Onde e quando nós morremos, de Riad Gahmi

Tradutor: Grupo Carmin

É hora do jantar e o descendente de imigrantes Karim invade o apartamento de um casal de meia-idade em um ótimo bairro parisiense. Ao ser pego em flagrante e tentar escapar sem sucesso, ele se vê refém de Marie, Victor e seu avô, o general, um velho militar que não fala por ter perdido a laringe e que precisa ir ao banheiro com a ajuda do neto, sempre pronto a limpá-lo depois que faz suas necessidades. Rapidamente, Karim se converte em um centro de gravidade sobre o qual são depositados o racismo e a hipocrisia de uma classe média pequeno-burguesa politicamente correta e pronta a colapsar.

É a vida, de Mohamed El Khatib

Tradutor: Gabriel F.

Existe um vazio terminológico para designar aqueles que perdem um filho, os “órfãos ao contrário”. É a vida caminha por esse deserto a procura de uma palavra, de uma esperança, convidando dois atores para testemunhar essa dor indescritível. Uma performance-experiência-limite que se sustenta sobre o fio da delicadeza. Mohamed El Khatib confecciona um pequeno manual para uso dos vivos. Distorcendo o papel do ator – o de fingir para se aproximar do real –, ele escreve uma peça tênue, em equilíbrio entre o pudor e a extrema proximidade com o público, a qual nos leva ao sentido da palavra hebraica shakoul, “a ursa a quem tiraram a ninhada”.

Fiz bem?, de Pauline Sales

Tradutor: Pedro Kosovski

Valentine, 40 anos, professora de literatura, está em crise. Ela se questiona a respeito de seu papel como mulher, mãe, professora e cidadã, assim como sobre sua geração e o momento atual. Durante uma excursão com seus alunos do 9º ano a Paris, Valentine decide abandoná-los à própria sorte.

Punhos, de Pauline Peyrade

Tradutora: Grace Passô

Punhos é uma história de amor tóxica dividida em cinco movimentos: Oeste, Norte, Sul, Pontos, Leste. Do primeiro encontro até a ruptura com ELE – um homem mais ou menos imaginado, mais ou menos próximo, mais ou menos perigoso –, vemos uma mulher desorientada, em estado de choque, que procura encontrar um sentido para o que viveu. O texto nos conduz ao coração da memória traumática, tratando a violência de gênero de maneira ao mesmo tempo corajosa e insólita.

Pulverizados, de Alexandra Badea

Tradutor: Márcio Abreu

Quatro profissões, quatro cidades: Xangai, Dacar, Lyon, Bucareste. Nelas conhecemos uma operária chinesa e sua rotina de humilhação cotidiana em uma fábrica; acompanhamos um supervisor de telemarketing apoiar-se sobre a crença em seu ambiente corporativo e a fé neopentecostal; notamos como o responsável pelo controle de qualidade de uma empresa vê sua relação familiar se deteriorar sob a pressão do trabalho e do sexo virtual; assistimos a uma engenheira de estudos sofrer por sua dificuldade de se integrar e subir na hierarquia. O cotidiano desses indivíduos é rude, cortante, às vezes cruel e vergonhoso. Todos são vítimas de uma corrida desenfreada pelo lucro provocada pela louca circulação do capital. Todos estão sujeitos à rentabilidade, à flexibilidade e à precariedade que move a gigantesca roda da economia no mundo globalizado.

Queimaduras, de Hubert Colas

Tradutora: Jezebel de Carli

A Jovem afirma ter visto um homem levar uma criança até uma esquina, espancá-la, violentá-la e comê-la. A comoção é geral. Crime verdadeiro ou pura imaginação? Não se sabe. Pouco importa a verdade. Mas é necessário que haja um crime a ser pago assim como que haja um culpado. Só então a comunidade poderá se limpar do horror que ela mesma provocou. Com uma linguagem carnal e lírica, Queimaduras fala do quão gratuita é a violência no mundo contemporâneo e aponta de forma aguda, algo que preferimos não enxergar: a civilização é irmã da barbárie.

Fabrice MelquiotFabrice Melquiot
Alexandre Dal FarraAlexandre Dal Farra
Marion AubertMarion Aubert
Renato Forin Jr.Renato Forin Jr.
Riad GahmiRiad Gahmi
Grupo CarminGrupo Carmin
Mohamed El KhatibMohamed El Khatib
Gabriel F.Gabriel F.
Pauline SalesPauline Sales
Pedro KosovskiPedro Kosovski
Pauline PeyradePauline Peyrade
Grace PassôGrace Passô
Alexandra BadeaAlexandra Badea
Marcio AbreuMarcio Abreu
Humbert ColasHumbert Colas
Jazebel de CarliJazebel de Carli

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