EdiçãoFrancófona

O projeto de Internacionalização de Dramaturgias idealizado por Márcia Dias, diretora da Buenos Dias, tem como objetivo promover a difusão da dramaturgia contemporânea brasileira e internacional. Com a parceria do Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil, o projeto busca levar textos teatrais além das fronteiras geográficas, linguísticas e estéticas. A iniciativa incentiva a criação e a circulação de obras teatrais, não apenas por meio de traduções, mas também através de encontros e processos colaborativos entre artistas, diretores e dramaturgos de diferentes países.

Nesta edição, dedicada à Temporada França-Brasil 2025, a Embaixada da França no Brasil, o Institut Français e o Sesc RJ são parceiros fundamentais. A Edição Francófona traz ao Brasil quatro textos fundamentais do teatro contemporâneo francófono, traduzidos por nomes do teatro brasileiro, publicadas pela editora SENAC Rio, sob o selo Casa SESC Editorial, ampliando a biblioteca do projeto e oferecendo novos textos para criadores de língua portuguesa: Entre as obras estão: Pistas…, de Penda Diouf, traduzido por Ana Laura S. Nascimento; Mamiwata, de Astrid Bayiha, traduzido por Vanessa Pascale; De Peito Aberto, de Eric Delphin Kwégoué, traduzido por Flânoir Bruno; e Do lado de cá, de Dieudonné Niangounna, traduzido por Renato Farias e Thiago Hypolito, do Complexo Negra Palavra.

Além de estar inserida na Temporada França-Brasil 2025, esta edição traz outro diferencial: a integração com o SESC Pulsar. Um dos artistas selecionados pelo programa assina a tradução de um dos textos francófonos, e a obra escolhida pelo edital – O legado – Um diálogo com Caio Fernado Abreu, será publicada em versão bilíngue, em português e francês, ampliando ainda mais o alcance do projeto e fortalecendo o diálogo entre as duas línguas.
O projeto inclui residências artísticas e encontros entre encenadores(as) brasileiros(as), dramaturgos(as) francófonos(as) e companhias de teatro locais. Esses encontros visam compartilhar o processo criativo, culminando na apresentação de leituras de textos teatrais ao público e no lançamento das publicações durante os Festivais do Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil, em 2025.

Cada etapa do projeto reforça seu compromisso com a internacionalização da dramaturgia, utilizando a tradução como um meio de estabelecer conexões e construir pontes culturais. A tradução, ao acolher palavras estrangeiras, transforma-as em algo familiar e fértil, capaz de gerar novas paisagens criativas.

Que esta Edição Francófona, construída especialmente para a Temporada França-Brasil 2025, siga multiplicando encontros entre culturas e públicos, promovendo a troca de boas histórias e a criação de novas relações artísticas e culturais.

Pistas..., de Penda Diouf

Tradutor: Ana Laura S. Nascimento

Atravesso este país de carro, a pé, sozinha, às vezes acompanhada de namibianos cujos nomes hoje já esqueci. Essa mãe com seu bebê que levei ao hospital, a mais de 200 km do lugar onde ela estava pedindo carona. Ela fala algumas palavras em inglês. O filho está doente, tem febre. Encontros fugazes na beira da estrada, olhares trocados, sombras difusas à beira da pista, das quais não se sabe se são uma árvore centenária, uma miragem ou uma pessoa esperando pacientemente que algum motorista pare.

De peito aberto, de Eric Delphin Kwégoué

Tradutor: Flânoir Bruno

São eles que querem fazer de você isso que você acredita ser. Mas eu sei que nesse peito que vejo há um coração que bate no mesmo ritmo que todos os outros corações... e um coração tem como única e exclusiva função produzir a vida e o amor. É por essa razão que acredito que, no fundo de você, há uma personalidade totalmente diferente, a verdadeira, aquela que permanece luminosa e benevolente... esse seu eu profundo que não poderia se deixar instrumentalizar, manipular ou corromper. Cada ser humano, seja ele quem for, de onde quer que venha, carrega consigo os genes da verdade e da justiça. Você não é um monstro e nem saberia ser.

Mamiwata, de Astrid Baiyha

Tradutor: Vanessa Pascale

Meu nome é Mamiwata. Quando nasci, mal tive tempo de saborear meu primeiro suspiro antes que a crueldade da minha vida cuspisse em meu rosto. Mamãe amava papai, que não a amava. Você também. Eu sei, sim. Mas isso é mais complicado. Porque minha mãe era uma filha da água. Não como as outras, não. Ela queria amor verdadeiro, do tipo que não pode ser comprado, não pode ser adulterado, não pode ser rouba - do, não pode ser arrancado, não pode ser controlado, não pode ser disfarçado, não pode ser trocado. Não pode ser trocado.

Do lado de cá, de Dieudonné Niangouna

Tradutores: Renato Farias e Thiago Hypolito

E aí desisto como Sísifo, ela despenca falésia abaixo enquanto todos me gritam: ‘Não renegue o seu passado! Não vire as costas para sua cultura! Seja você mesmo! Não desista!’ E, feito idiota, corro pelo vale para acabar como um fantasma e recomeço! Só me resta voltar para a cozinha para ver se os rapazes da limpeza têm alguma história engraçada para contar. Eles já passaram por muita coisa. A pior seria uma espécie de barricada erguida contra a esperança quando chove golpes. Talvez não lhe tenham dito, senhor, mas do lado de cá ele parou de atuar.

Penda DioufPenda Diouf
Ana LauraAna Laura
Éric Delphin KwégouéÉric Delphin Kwégoué
Flânoir BrunoFlânoir Bruno
Astrid BayihaAstrid Bayiha
Vanessa PascaleVanessa Pascale
Dieudonné NiangounnaDieudonné Niangounna
Renato FariasRenato Farias
Thiago HypolitoThiago Hypolito

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