Se o Brasil reconhece que exportar produtos fortalece a economia e amplia sua presença internacional, por que ainda tratamos a internacionalização da produção cultural como uma iniciativa isolada e não como uma política estratégica?
O Brasil compreendeu, há muito tempo, que exportar café, soja, minério, carne, aeronaves ou tecnologia fortalece sua economia e amplia sua presença no mundo. Por isso, construiu políticas, instituições e instrumentos voltados à promoção comercial de seus produtos.
No entanto, quando se trata da produção cultural, seguimos dependendo quase exclusivamente da persistência de artistas, produtores, instituições e parceiros internacionais para construir pontes com outros países. É como se reconhecêssemos o valor estratégico dos bens materiais, mas ainda não o potencial de um dos nossos maiores ativos: a cultura brasileira.
A cultura reúne dimensões que poucos setores conseguem integrar. Gera atividade econômica, empregos, circulação de bens e serviços, direitos autorais e novas oportunidades de negócios. Ao mesmo tempo, projeta a identidade do país, fortalece sua imagem internacional, estimula o diálogo entre povos e amplia sua capacidade de estabelecer relações diplomáticas.
Internacionalizar a cultura é internacionalizar pensamento, memória, diversidade e criatividade. É permitir que o Brasil seja conhecido não apenas pelo que produz, mas também pelo que cria, imagina e compartilha. Cada obra brasileira que alcança novos públicos leva consigo saberes e, sobretudo, uma narrativa sobre o Brasil construída por nós mesmos.
Poucos países reúnem uma diversidade cultural comparável à brasileira. Nossa formação histórica, étnica, social e regional produziu uma riqueza artística de interesse internacional. Apesar desse potencial, a presença internacional da cultura brasileira ainda ocorre de forma fragmentada e descontínua. Avançamos por meio de iniciativas relevantes, mas ainda carecemos de mecanismos permanentes que garantam continuidade, escala e previsibilidade à inserção internacional da nossa produção cultural.
Mais do que um patrimônio simbólico, a cultura precisa ser compreendida como um ativo estratégico para o desenvolvimento do Brasil, capaz de gerar valor econômico, fortalecer sua imagem internacional e ampliar sua presença no mundo. Reconhecer a internacionalização da cultura como uma política permanente de desenvolvimento significa construir uma visão de longo prazo, sustentada pela cooperação entre poder público, iniciativa privada, instituições culturais e sociedade.
Políticas públicas surgem quando um país reconhece que determinado patrimônio é estratégico para o seu futuro. Talvez tenha chegado o momento de o Brasil fazer esse reconhecimento também em relação à sua cultura.
Se a cultura brasileira é um dos nossos maiores ativos econômicos, simbólicos e diplomáticos, por que sua internacionalização ainda não é tratada como um projeto de país?